terça-feira, 25 de dezembro de 2007

:: 08

E se aproxima o momento de prometermos não repetir uma série de erros e então comerçarmos a repetí-los.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

:: Formigas desrespeitosas

Imagine que um pote de mel virou sobre um gramado, derramando uma doce onda dourada. Imagine também que este gramado serve de residência para uma imensa colônia de formigas. Agora associe uma coisa à outra e imagine o resultado.

É bastante óbvio que hordas de formigas invadirão o gramado para deleitarem-se na piscina caramelizada. Eu ia escrever agora que também é óbvio que as formigas levariam, de pouquinho em pouquinho, todo aquele mel para sua casa. Mas me ocorreu que para que isto fosse óbvio seria melhor que lá no início da minha historinha eu usasse o exemplo de um pote de açúcar e uma doce avalanche, já que não me é muito claro se formigas levam coisas líquidas pra dentro do formigueiro. Enfim, o que quero dizer é que formigas não dispensam uma oferta de comida e vivem uma rotina árdua de coletar tudo o que encontrarem hoje já que não sabem como será o amanhã.

Eu estava na Avenida Brasil e os carros fluíam muito rapidamente pelas pistas razoavelmente conservadas daquele trecho próximo à Magalhães Bastos. Meu destino era Bangu, onde um churrasco de encerramento das atividades letivas me aguardava. De repente luzes de alerta começaram a piscar e o trânsito parou. Lentamente atravessei os cerca de 500 metros de engarrafamento que me separavam de um caminhão de cervejas tombado sobre o Viaduto que dá acesso à Realengo.

Foi então que uma cena me chamou a atenção e me deixou bastante angustiado. Não pelo que vi, na verdade, mas pelo que pensei a partir de então. Centenas de pessoas cruzavam as pistas, vindas dos barracos que entopem as estreitas travessas perpendiculares à avenida. Seu objetivo não era ver o acidente, mas coletar os engradados espalhados pelo asfalto e as latinhas azuis que rolavam viaduto abaixo. Eram mulheres, homens, senhores, crianças. Eram muitos e todos carregavam o máximo que podiam. Um deles trazia um carrinho de mão e exibia um imenso sorriso de satisfação com a conquista.

Não quero comparar aquelas pessoas às formigas no sentido de animalizá-las, longe disso. Mas, como as formigas, aquelas pessoas não queriam saber de quem era o pote de mel. A única coisa que as interessava era garantir que aquela oferta não fosse desperdiçada. É verdade que ninguém garante a alimentação com cerveja, mas aquela cerveja garantirá uma comemoração, um brinde, um churrasco como o que me esperava em Bangu, com a diferença de que não seria preciso desviar uma parte do magro orçamento para custeá-lo.

Ouvi algumas pessoas resmungarem que era desrespeito com a propriedade privada, que 'aqueles animais' não tinham educação. Estas pessoas viam a mesma cena, mas o desrespeito que eu enxergava era outro.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

:: Moldura

Parecia uma foto. De repente meus olhos foram atraídos pela imagem emoldurada pela janela, deixando de lado, por longos instantes, a tela luminosa do computador. A luz do fim da tarde dava um brilho especial às casas alaranjadas e às copas das ávores, quase sempre verdes, mas naquele dia multicoloridas.

Ventava, mas não o suficiente para embalar as folhas e isso reforçava a idéia de uma imagem estática. Não fossem as pipas, ricocheteando suas rabiolas acima das árvores, em contraste com o céu azul, tudo não passaria de uma pintura, exposta numa galeria, à espera de olhos que a olhassem.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

:: Melhor

É muito melhor quando é inesperado.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

:: Se

Se eu tivesse ido direto para casa talvez agora ainda teria oitenta reais na carteira e colocaria o meu celular ainda não pago para despertar amanhã às 6h30.

Será?

Uma das coisas mais intrigantes da vida é essa imprevisibilidade.

Existe roteiro? Já está tudo escrito? Estamos atuando, sendo dirigidos por diretores invisíveis? Um passo à esquerda implicará em alguma mudança futura se o passo tivesse que ser dado à direita? O bolo solado de hoje teria solado se há três semanas eu não tivesse assistido àquele filme?

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

:: Virando o jogo

É maravilhoso reencontrar pessoas queridas. Melhor ainda quando o último encontro, há vários meses, parece ter sido ontem de tardinha. E aí não tem aquela história de 'o que você tem feito' ou de 'tem visto o pessoal'. O papo flui naturalmente, uma continuação da última conversa, interrompida 'ontem de tardinha'. Os minutos voam e no fim das contas o tempo se mistura de tal forma que ninguém saberia dizer se estamos no passado do presente ou no futuro do passado. É como transformássemos passado e futuro em eternos presentes, o presente de então, o presente de agora e o presente do vir a ser. É uma sensação boa essa de enganar o tempo, virar o jogo, já que é ele quem costuma nos enganar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

:: Trilhas

A palavra rotina perde um pouco o sentido quando trata-se da minha rotina. Ao longo dos cinco dias úteis da semana frequënto quatro diferentes ambientes de trabalho. Agora em novembro são cinco. Entre um lugar e outro, convivo com, chutando baixo, 400 pessoas diferentes, com humores diferentes a cada dia. Ao fim de um dia de trabalho ouvi dúzias de histórias, dei dezenas de conselhos, recebi outros tantos, ensinei, aprendi, ri de algumas situações, de outras não. Ao fim de cada ano a "rotina" muda completamente: novos horários, novos locais de trabalho, novos rostos, novas histórias. Isso é delicioso. É ótimo não cansar das situações. Mas é uma pena que algumas delas não possam ser revividas. Ou pelo menos não com as mesmas pessoas, nos mesmos espaços.
As pessoas passam e deixam trilhas, caminhos abertos. Torço para que, através destas trilhas, eu possa alcançá-las algumas vezes ao longo da minha vida. Torço para que, através destas trilhas, elas possam me alcançar algumas vezes ao longo de suas vidas.