quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

:: A Sombra do Vento

Tem esse livro, A Sombra do Vento, que eu comecei a ler em janeiro de 2010, parei de ler por algum motivo do qual já não me lembro e decidi retomar a leitura desde que ganhei, no Natal, o segundo livro do mesmo autor editado no Brasil pela Suma de Letras. Mais sobre o livro, olha aqui.

E aí que um personagem secundário na história tem tiradas incríveis. No início da história ele é um mendigo fedorento largado numa praça de Barcelona mas ganha espaço na narrativa ao começar a trabalhar na livraria do pai do personagem principal da trama. Descobre-se, mais tarde, que ele é perseguido por um chefe de polícia envolvido em torturas de inimigos políticos do regime franquista. Talvez ele seja um bandido, talvez ele não seja apenas um personagem secundário, enfim, eu ainda não terminei o livro. Mas fico torcendo pra surgir outro diálogo envolvendo o Fermín.

Numa passagem, após um personagem homossexual ter sido preso e sofrido abusos terríveis na cadeia, uma mulher comenta que existem muitas pessoas malvadas no mundo. Fermín manda essa:

- Malvadas não. Imbecis, o que não é a mesma coisa. O mal pressupõe uma determinação moral, uma certa inteligência. O imbecil é um selvagem que não para pra raciocinar, agindo por instinto convencido de que está fazendo o bem, de que sempre tem razão e orgulhoso de sair fodendo tudo aquilo que lhe parece diferente dele próprio, seja em relação à cor, credo, idioma, nacionalidade ou pelos hábitos que as pessoas tem nos momentos de ócio. O que faz falta no mundo é mais gente ruim de verdade e menos espertalhões limítrofes. E não me venham com deus porque a indústria do missal é parte do problema e não da solução.

Em outra passagem, sobre o serviço militar obrigatório, atesta:

- O serviço militar só serve para se descobrir a porcentagem de homens violentos na população. E isso se descobre nas duas primeiras semanas, não é preciso um ano. Exército, casamento, igreja e banco: os quatro cavaleiros do Apocalipse.

Tem mais coisa que esqueci de marcar e não estou com paciência de buscar no livro, até porque deve vir mais coisa por aí.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

:: Férias

E então começaram as obras e elas vão consumir todas as minhas férias (estranho falar das minhas férias como se elas fossem várias quando elas são apenas uma tudo por causa de uma questão linguística que determina que férias seja um substantivo plural).

Não que eu esteja diretamente envolvido na execução das obras, mas orçar materiais, escolher ponto de instalação de tomadas, escolher cor de piso, azulejo e tinta, decidir sobre a posição da geladeira e tantas outras coisinhas do tipo faz com que minhas férias girem em torno da obra. Fora o fato de que eu tenho, por sugestões de diversos amigos que estiveram envolvidos com obras recentemente, que marcar presença na obra, dar uma fiscalizada - ainda que eu não entenda porra nenhuma de hidráulica e não saiba se massa acrílica e massa corrida são a mesma coisa.

---

Ontem fui ao Samba do Trabalhador no Clube Renascença e Moacyr Luz estava inspirado. A roda foi genial e no finalzinho caiu uma chuva de leve pra coroar a noite. As doses de glicose foram na Dominos.

---

Logo mais começa meu curso de degustação de cerveja no Her Brauer. Quando eu recuperar meus sentidos eu escrevo sobre a experiência do primeiro dia.

---

Preciso de sugestões e de companhia para programas diurnos para as minhas férias. Eu tô de bobeira mas a patroa aqui não, então é razoável estar com ela no fim de um dia de trabalho.

Ainda que eu precise eventualmente dar aquela fiscalizada nas obras, quero ir a praia, ver uns filmes (cinema e dvd), assistir a algumas exposições (soube de uma de Cora Coralina), conhecer algum novo restaurante, passear por algum parque, subir o Pico da Tijuca, ler na Reserva do Grajaú...

Inscrições e sugestões via twitter, facebook, sms ou comentário no blog.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

:: Uma urna na careca do Serra

O mês estava pago e as edições de O Globo continuam chegando. Na capa de hoje, a eleição da Dilma não era uma escolha da nação, mas do Lula, que nos teria a enfiado goela abaixo. O Globo continua chamando seus leitores de marionetes ignorantes com o irônico objetivo de manipular e deturpar os fatos.

A celebração da vitória deu lugar a um alerta: cuidado, Dilma tá esquentando a cadeira pro Lula voltar! Ah, é? Oba! Quando ele volta? Em 2014, já? Já é.

Se a charge da capa fosse minha, no lugar da Dilma angustiada sem saber o que fazer com o cargo, eu colocaria uma urna eletrônica caindo no meio da careca do José Serra.

Por dois motivos.

Primeiro porque acredito que se surpreenderão aqueles que esperam que o Lula seja uma sombra da Dilma e que ela não consiga imprimir ao governo uma característica própria. Acho que Dilma terá pulso firme e controlará o governo muito mais tecnicamente que Lula e que ele vai ficar totalmente fora dos holofotes políticos, tocando seus projetos de relações internacionais. E, claro que as conjunturas podem mudar tudo, não acredito que Lula volte à cena política. Saiu por cima e deve preferir colher os louros destes oito anos o resto da vida.

Segundo porque, numa eleição dominada por temas apolíticos, como aborto, religião e moral, não consigo deixar de pensar que o drama da bolinha de papel não tenha contribuído significativamente para que muitos eleitores do Serra pouco convictos ficassem envergonhados e mudassem de voto. Ou tenham ido à praia.

Dito isso, torço pra não haver mudanças no Ministério da Educação. E me delicio ao lembrar que o Grupo Folha e as Organizações Globo perderam mais uma eleição. Daqui pra frente é ver qual vai ser.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

:: O dia em que cancelei minha assinatura

Rio de Janeiro, 25 de outubro de 2010.
Ao Jornal O Globo,

Eu não acredito na imparcialidade. Quando um jornal ou revista escolhem entre tantas notícias qual delas ganhará destaque, a parcialidade entra em ação ainda que se tente uma abordagem imparcial na cobertura do fato. Mas eu acredito na honestidade. Quando o jornal Folha de São Paulo emitiu sua posição de apoio a candidatura de José Serra não ganhou minha admiração, mas conquistou meu respeito. O Globo, ao se vender como neutro na cobertura desta eleição, mas praticar uma campanha descarada, suja e subliminar a favor de Serra, conquista meu repúdio.

Não quero discutir ideologias, cada um tem a sua. Ou não as tem. Também não quero discutir notícias. Elas são fabricadas. Quero discutir fatos.

Na segunda-feira, 18 de outubro, milhares de artistas e pessoas ligadas à área cultural assinaram manifesto em apoio à candidatura de Dilma Roussef. O Globo deu destaque não ao fato, mas a uma leitura particular de que se José Padilha, cujo nome constava na relação, não assinou o manifesto, então nenhum dos demais nomes deveria merecer nossa credibilidade. O manifesto foi um fato. O manifesto-fraude foi a notícia.

Na quarta-feira, 20 de outubro, José Serra foi atingido por objetos lançados contra ele durante caminhada em Campo Grande, no Rio de Janeiro. A agressão partiu de uma pessoa, de livre manifestação e cuja conduta merece crítica. Esse foi o fato. Petistas atacam José Serra foi a notícia.

Como ninguém conseguiu enxergar nada além de um borrão naquelas imagens de baixa resolução e tremidas, o Globo dedicou grande espaço no dia seguinte para tentar convencer seu público leitor de que aquilo era um objeto de tamanho considerável. Enquanto isso, lá no final da página, em letras menores, uma notinha: o Brasil atingia o menor nível de desemprego dos últimos oito anos e a renda média do brasileiro cresceu 6,2%. Esse era o fato, mas a careca do José Serra parecia ser muito mais importante para a nação.

No último sábado, ao levantar pela manhã e buscar meu exemplar de O Globo na porta de casa, minha tolerância chegou ao fim. Na sexta-feira, o Jornal Nacional havia apresentado resultados da última pesquisa do DataFolha sobre a avaliação do Governo Lula: a melhor avaliação da história. Mas o que estava na capa de O Globo, hoje? “Lula sai do governo menor do que entrou”. Pra quem? Pro Aécio Neves? Mas e o que pensa a nação? Aécio vale mais que o Brasil para esta instituição?

Estes são apenas exemplos destacados ao longo de uma semana. A prática é recorrente. O Globo sofre de um mal tradicional na grande mídia brasileira: o de se achar imprescindível e o de supor que seus leitores são suficientemente ignorantes para acreditarem que “verdades” e opiniões se confundem.

Assim, ofendido, indignado e nauseado diante de tanto fedor emanando das páginas deste jornal, manifesto minha decisão – tardia, dirão alguns amigos – de cancelar minha assinatura.

Faber Paganoto

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

:: Delicadeza

Eu dirigia vagarosamente, com o pisca alerta ligado, numa rua de mão dupla com apenas uma pista de subida e uma de descida. Nas laterais, carros estacionados paralelamente à rua e eu esperava encontrar uma vaga entre eles. Achei. Já havia percebido que desde que havia entrado naquela rua, um carro me seguia bem de perto, e quando parei para fazer a baliza e estacionar o carro obviamente não consegui porque o carro que me perseguia estava coladinho na minha traseira. Suspirei. Abri o vidro. Coloquei a mão para fora e sinalizei que queria estacionar, que ele cortasse pela esquerda, não vinha carro nenhum na contra-mão (não vinha ao longo de todo o processo, aliás). O carro deu uma breve ré, embicou para a esquerda, mas antes de passar por mim, encostou. O motorista abriu a janela. Um senhor, de uns 60 anos, talvez um pouco menos. E então ele perguntou "onde foi que você fez aula de direção?". Minha vontade foi de responder que independente de onde tivesse tido aulas de direção, certamente teria sido em algum lugar melhor que aquele onde ele havia aprendido, pois me ensinaram que pisca alerta significa parada repentina a qualquer momento e me ensinaram, ainda, que em qualquer circunstância devemos primar pela direção defensiva, mantendo distância de segurança em relação aos carros da frente. Mas ele perguntou aquilo e foi seguindo, devagarzinho. Não haveria tempo. Então tive que ser objetivo e usar de toda a minha delicadeza para dizer "Vai-tomar-no-olho-do-seu-cu-velho-filho-duma-puta!!!"

domingo, 17 de outubro de 2010

:: Debate Folha/Redetv

As ações da Petrobras se valorizaram em função do crescimento de Serra nas pesquisas, né? Aí eu pergunto: ações valorizam-se e desvalorizam-se por quê? Especulação. E quem ganha com especulação? Especuladores. Baderneiros endinheirados que ganham dinheiro virtual em cima de nada. Eu não quero entregar meu país a especuladores financeiros internacionais.

A telefonia avançou desde que FHC e Serra privatizaram a telebrás, né? Aí eu me pergunto: será que o peso maior nesse processo de capilarização do acesso a telefonia não cabe aos avanços técnicos que permitiram o barateamento das redes de telefonia? E me pergunto ainda: será que as pessoas se dão conta de que o custo das tarifas básicas de serviços que foram privatizados, a saber, telefonia e energia, passou de 10% para 23% da renda média do brasileiro entre 1998 e 2008?

Quem pensa um pouquinho vota na Dilma. Quem pensa um pouquinho execra o Serra. Quem pensa um pouquinho não acredita na Veja, na Folha, no Globo e no discursinho de valorização do patrimônio público que o Serra faz na TV.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

:: Aborto e outros conservadorismos

Poucas coisas me irritam mais do que conservadorismo. Se os rumos dessa eleição mudarem em função da temática do aborto, vai ser repugnante.

Sou a favor do aborto, da legalização das drogas e do casamento homossexual.

Não porque eu queira abortar, fumar um baseado ou me casar com outro homem. Sou a favor por dois motivos fundamentais.

O primeiro, porque não importa o que eu quero pra mim, qual a minha verdade, quais as minhas crenças e os meus valores. Importa que eu vivo em uma sociedade diversificada e como tal, devo respeitar interesses alheios aos meus.

O segundo, porque aborto, uso de drogas e casamentos gays já acontecem. Achar que a ilegalidade impede sua existência é ingênuo e inócuo. A questão é que ao legalizar, muda-se o foco do debate. A mulher que aborta clandestinamente, por exemplo, passaria a fazer o que já fazia de forma mais segura, bancada com recursos próprios ou do governo, dependendo de sua renda. O usuário de drogas deixaria de ser um caso de polícia e passa a ser um caso de saúde pública. E os gays poderiam garantir direitos tão caros aos casais heterossexuais, como o compartilhamento de bens.

Me parece primitivo que as pessoas que são contra essas questões se incomodem tanto com sua legalização. Ora, eu não vou passar a injetar heroína se o seu consumo passar a ser legalizado. Nem vou usar o aborto como método contraceptivo ou casar com meu amigo mais próximo.

Você não gosta? Não usa? Acha errado? Ok. Direito seu. Mas o mundo não gira entorno do seu umbigo.

A seguir, as capas de Veja, em 2010 e em 1997.

Na capa desta semana, a condenação de Dilma, a candidata malvada, que defende o aborto, essa coisa do capeta. O Brasil não pode ser governado por alguém assim. E o direito à vida?

Na capa de 1997, celebridades brasileiras assumem ter feito aborto, esta prática coerente com a autonomia reprodutiva e que deveria ser defendida por um Estado laico.

Mudar de lado ao sabor do vento. Veja só que ironia...