quinta-feira, 11 de setembro de 2008

:: Uma não-resposta e um dilema

Aí eu estava participando de um seminário sobre migrações intra-metropolitanas. Um dos trabalhos apresentados na mesa redonda daquela tarde me interessava muito. A autora, estudiosa da Região Metropolitana do Rio de Janeiro há três décadas, certamente traria questões e reflexões importantes para o meu projeto de doutoramento.

20 minutos de apresentação e eu já tinha quase quatro páginas de anotações rabiscadas freneticamente no bloco oferecido pela organização do evento. Aí uma filha da puta levantou aquela plaquinha dos cinco minutos. Ninguém respeita essas plaquinhas, né? Mas a Luciana resolveu que tinha que respeitar e cinco minutos depois ela finalizava sua apresentação. "Há muito mais coisa a ser dita, mas é bom que se respeite o tempo". Não! Não respeite o tempo. Fale mais, Luciana! Não vê que tenho um projeto de doutoramento a construir?

Não havia o que fazer. Restava agora esperar a debatedora abrir para as questões da platéia. Mão na cabeça e assim que a debatedora falar 'valendo' eu aperto o botão e disparo a campainha!

Se fosse um game show eu perderia, mas era uma mesa redonda e eu garanti a segunda pergunta da primeira rodada de três inscrições. Me apresentei, fiz uma piadinha, tirei umas risadinhas tímidas do pessoal, falei bonito, ela até levantou uma sobrancelha e fez cara de 'hummmm'. Minha intenção era confirmar uma hipótese e sondar se já havia dados sobre uma questão que tem me feito pensar bastante. Três décadas de estudos sobre a RMRJ. Ela saberia. Saberia se sim ou saberia se não.

Vieram as respostas e eu fiquei sem a minha. Pensei em reforçar a pergunta, fazer sinal para ver se ela se dava conta de que tinha esquecido de me responder. Fiquei com vergonha. "Ih, olha lá, ela esqueceu dele". Se eu não falar nada, vai ver ninguém repara.

Fui embora pensando sobre a minha não-resposta. Convenci-me de que, na verdade, foi um silêncio consciente. Ou ela não sabia o que responder ou resolveu roubar minha hipótese para debruçar-se sobre ela e publicar algum artigo. Seja o que for, aquela não-resposta me deu mais motivação para aprofundar a temática do que qualquer resposta poderia ter dado.

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Meu dilema tem sido 'viver um momento especial e arriscar perder motivação para seguir com um projeto desgastante mas importante ou aproveitar a motivação para seguir com um projeto desgastante mas importante e arriscar me arrepender para sempre de não ter vivido aquele momento especial'. Odeio dilemas.

4 comentários:

disse...

Eu tb odeio dilemas.
Mas gosto do que vc escreve.

Breno disse...

Profundo o comentário acima XD
Confesso que demorei três anos relendo seu dilema. Porque você sabe, uma pessoa que interrompe a aula de recuperação do professor de geografia achando que está atrasado para a de biologia precisa de muita calma para entender um dilema tão complicado. Ainda mais porque o ponto final não chegava nunca. Brincadeira, Faber =D
Dilemas têm de ser resolvidos pelo próprio dono delas, afinal, é o benefício da dúvida..
Mas apoio o 'viver o momento'. Você às vezes pode esquecer dos bons momentos, mas nunca esquece os ruins. Mas no caso, é questão de ser especial ou não, adequado ou não. It's up to you!

p.s: Faber, posso fazer uma pergunta?
Cê tem religião/acredita em Deus?
Ok, foi estúpido, mas é porque quero tirar umas conclusões sobre algumas pessoas.. *risada maléfica*

André Lima disse...

Escolher é ruim. Mas poder escolher é bom.

Heitor Achilles disse...

Prefiro me concentrar no último parágrafo, aquele após os -----.

Nele há algo que transcende os dilemas da vida acadêmica. Nela, o desgaste é inevitável e quanto ao arrependimento, contornável. Contornável porque pode nos motivar a seguir outros rumos. E aí a sensação, ainda bem que estou arrependido.

Mas, indo além das entrelinhas, além dos fatos concretos, sinto dizer meu caro: o que é especial agora, será só agora. E se o especial vem depois, temos que estar vivos para saboreá-lo. Independetemente de tudo isso, o tempo taí para garantir o desgaste, seja agora ou depois, ele nos lembra que tudo tem seu prazo de validade.

Não tem como sair ileso. Diante dos dilemas o melhor é arriscar até o fim. Arriscar hoje e tb amanhã. Nada mais natural: "o certo é incerto"

Até +