segunda-feira, 16 de junho de 2008

:: Seres falantes

"Já fomos uma sociedade de seres pensantes, mas nos tornamos uma sociedade de seres falantes".

Com essa frase tão simples quanto profunda, a personagem de Drica Moraes, em 'A Ordem do Mundo', sintetiza sua inquietude diante da centralidade que o celular assumiu em nossas vidas. É tão óbvia e ao mesmo tempo tão lúcida a conclusão a que ela chega que fiquei pensando sobre isso.

Eu sempre morei em apartamento, mas nem por isso deixei de brincar na rua. E quando saía pra brincar na rua, tudo o que minha mãe sabia era que eu estava na rua. E tudo o que eu sabia era que precisava subir antes das nove. Não tinha celular. Nada de 'onde você estava que não atendia o raio do celular, garoto?'.

Eu sempre estudei longe de casa. E aos 10 anos passei a pegar ônibus sozinho para ir e voltar da escola, do curso de inglês, do catecismo e do teatro. E tudo o que minha mãe sabia era que eu estaria em casa quando ela voltasse. E se não estivesse, era porque estava na rua, e voltaria antes das nove. Não tinha celular e eu continuo vivo.

Desde que me lembro, existem engarrafamentos no Rio de Janeiro. E sempre que o engarrafamento resultava em um atraso, ele simplesmente resultava em um atraso. Hoje em dia, os atrasos provocados por engarrafamentos, além de mais freqüentes, ainda são atrasos, embora antecipados por uma ligação aflita do tipo 'eu já tô chegando, só mais meia hora, é que tem um engarrafamento aqui, sabe...'.

Até que ponto o celular está aí para facilitar a nossa vida?

Uma aluna, dia desses, me disse que tem celular próprio desde os 8 anos, 'por motivo de segurança, pra minha mãe saber onde estou'. Se a mãe dela ligar e ela não atender, aposto, vai entrar em desespero. Mesmo que ela esteja apenas distraída e não tenha ouvido o celular tocando. A minha mãe, nos meus 8 anos, apenas aguardava que eu chegasse em casa antes das nove. E não tinha desespero. Não antes das nove.

Há 10 anos, quem resolvia tirar férias, tirava férias de fato. Hoje em dia, carregam celulares e junto deles a brecha para que sejam encontrados por seus chefes ou por seus subordinados para, em pleno momento de relaxamento, darem um parecer ou tomarem conhecimento de alguma ocorrência.

Nos ônibus, nas filas, nos sinais de trânsito, nas salas de aula, nos intervalos de almoço, nos elevadores, no caminho pro trabalho, no caminho pra casa, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, em todos os lugares, estamos ao celular. Tornamo-nos reféns do celular. Criamos a necessidade de tê-lo e antes que nos déssemos conta, já não conseguíamos viver sem ele. Somos uma sociedade de seres falantes, tenho que concordar, ainda que angustiado.

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Eu ia começar a falar sobre os laptops e sua mobilidade maldita, mas desisti. Isso implicaria em falar também sobre os computadores e suas 'facilidades'. Melhor parar por aqui e recomendar 'A Ordem do Mundo', com Drica Moraes, fantástica, até 30 de junho, no Teatro Clara Nunes.

9 comentários:

Thá disse...

Vc conseguiu fazer eu me sentir muito presa... Eu ando com 2 celulares na bolsa!

Bom, agora já não sei se a sensação de prisão é por isso mesmo, ou se é pq eu não posso andar sem essa bota imobilizando meu pé.

Mas enfim, gostei do texto. Apesar de ser refém dos aparelhos.
Ah, e nem ouse falar dos laptops. Vc já foi capturado por eles!

Arthur disse...

Faber! Acho que eu tive uma ideia legal de filme pra vocês passarem no "Em Cartaz"!

Ana Clara MacDowell disse...

eu acho que os reféns se apresentam em níveis. dos mais presos ao menos.

eu ia até dizer que não tem refém, mas qm tem celular, tá ferrado de qlqr jeito >.<

mas msm assim, acho que a maioria das pessoas é obcecada e não necessariamente necessitada. Dane-se, é só não atender o celular, é só deixar ele em casa, ou então não carregá-lo ¬¬

Mas as pessoas gostam desse grude.... gostam e muito!

Anônimo disse...

Segundo pesquisa realizada em agosto de 2007 pelo instituto Datafoda-se, apenas 13,5% do que é falado nos aparelhos celulares são realmente "informação" necessaria.

O resto, como voce falou no texto é esse "eu ja to chegando..." ou seja: conversa fiada mesmo.

saudações tricolores,
rumo ao Japão!

André Lima disse...

Sei não, acho que o celular trouxe mais benefícios que problemas. Sempre terão os viciados. Internet, TV, até livros. Tudo pode ser usado para a merda. É, tem situações que se popularizam mais e tornam-se endemicas, mas ainda sim tem como não ser refém. Eu acho que um "vou me atrasar 20 min" em ligação ou sms mesmo super saudável. Já vai atrasar, pelo menos tenhaa cortesia de avisar ora bolas.
[meu comentário ficou tão...aquele menino que parece o rapp]

Faber disse...

AHAHAHAHAHAHAAHAHHAHAHHAHAhHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHaHHAAHAHAHAHAH

Amanda Luiza disse...

Adoro o seu blog.
Gosto muito do q vc escreve...
Sempre q posso dou uma passadinha aqui.
POst muito bem pensado e escrito.

Bjus

cajibrina disse...

buteco convida para uma visita.
abraços

Bia... disse...

um dia um filho chegou depois das nove a mãe teve um enfarto e nasceu o celular!